Hoje eu acordei decidida.
Hoje eu acordei consciente.
Acordei. Acordei com a minha heroína… Eu.
Acordei decidida, peguei a capa da Batgirl, recortei, costurei e transformei em lindas almofadas; reaproveitamento (risos).
Acordei decidida a limpar, transformar, mudar… Tirei do armário a roupa da Mulher-Maravilha, aquela roupa que nunca me coube: pequena, apertada, desconfortável. Eu ajustava na cabeça, apertava meus punhos, cintura, os sapatos número 33. Eu insistia em usar algo que nem era meu, em lugares onde me sentia ridícula e me comportava da mesma forma, mas ficava desconfortável por estar assim, achando que assim gostariam mais de mim.
Acreditava que era o lugar e com aquelas pessoas que eu insistia em estar, apesar da dor, do desconforto, dos olhares… Mas insisti em usar.
Assim fui pela vida sendo a “GUERREIRA” nas vestes das heroínas brancas que conheci na infância, aquelas que trouxeram referências para a vida, pois eu não conhecia heroínas negras… e eu tinha uma só: a minha, que me deu a vida; minha mãe – Maria José Alves Ferreira.
E hoje, transformei a roupa da Mulher-Maravilha em retalhos.
Retalhos que não cabem mais em uma vida apertada.
Retalhos que agora costuro com calma, com verdade, com amor-próprio.
Com eles, construo uma nova veste: leve, confortável e minha.
Hoje não preciso de capas que não me pertencem.
Não preciso calçar números menores para caber em expectativas alheias.
Não preciso ajustar minha voz, meu corpo, meus sonhos para agradar.
Hoje me visto de mim.
Me visto da história que carrego na pele, na memória e no coração.
Me visto da força de quem veio antes de mim e abriu caminhos mesmo sem reconhecimento.
Me visto da coragem que aprendi com aquela que me ensinou a viver, a resistir e a continuar.
Hoje descanso das guerras que não eram minhas.
Descanso da necessidade de provar o meu valor.
Descanso da busca por lugares que nunca foram casa.
E, em paz, escolho.
Escolho ser inteira.
Escolho ser livre.
Escolho ser exatamente quem sou.
Minhas vestes agora são feitas de verdade.
Minhas escolhas agora são feitas por mim.
E, finalmente, acordo todos os dias para ser…
Eu.
Somente eu.
—
Rosemary Senna
Escritora e autora de textos reflexivos sobre identidade, força feminina e recomeços. Coautora do livro ‘Quais de Mim Você Procura?’.
