Este espaço surge de uma inquietação profunda — e necessária.
Escrever meu primeiro texto no blog no Instituto QDM não é coincidência. O IQDM nasce da palavra, da escuta, da história contada e compartilhada. E histórias, quando ganham voz, salvam. Salvam quem escreve, quem lê e quem se reconhece nelas. É exatamente aí que eu, como especialista em ESG e Sustentabilidade, vejo seu sentido mais real.
Vivemos um tempo em que a palavra sustentabilidade está em toda parte. Em relatórios, discursos, campanhas e compromissos públicos. Mas, ao mesmo tempo, mulheres seguem sendo violentadas, silenciadas, excluídas e mortas. Por outro lado, muitas mulheres passam rasteiras em outras mulheres. Algo não fecha. E é justamente essa contradição que me impele a escrever uma série sobre ESG.
ESG e mulheres
Mas afinal das contas, o que é ESG? ESG (E de meio ambiente, S de social e G de governança) representa ações e práticas corporativas – dentro das empresas e comunidades abordadas por ela – focadas em sustentabilidade. ESG não é moda e, simplificando, significa:
- E (Environmental): impacto ambiental
- S (Social): pessoas, relações, direitos, segurança, dignidade etc.
- G (Governance): ética, decisões, poder, transparência
Quando se fala em ESG, muita gente pensa em relatórios, métricas complexas, gráficos coloridos e discursos bem ensaiados. Sim, precisamos de tudo isso. Mas temos que encarar que, na prática, ESG é muito mais simples – e muito mais profundo. ESG é sobre pessoas. Sobre escolhas. Sobre responsabilidade. E, principalmente, sobre vidas.
Esta série de textos, que publicarei nesse blog, inicia-se com a certeza de que a sustentabilidade se inicia com conscientização e queprogramas corporativos de ESG devem se preocupar também com relações, direitos, segurança e dignidade das mulheres.
A pergunta que eu gosto de fazer é direta: que tipo de sustentabilidade estamos construindo se mulheres continuam sendo violentadas, silenciadas e mortas? Ou então, que tipo de sustentabilidade construímos quando mulheres sabotam mulheres?
E, quanto mais avanço nesse caminho, mais claro fica para mim que o “S” de ESG — o Social — ainda é o elo no qual é preciso se aprofundar. E que o “G” — a Governança — muitas vezes escolhe não enxergar aquilo que incomoda.
O problema começa quando o “S” vira discurso e o “G” vira formalidade. Empresas publicam compromissos lindos enquanto, dentro de seus muros, mulheres adoecem, se calam, pedem demissão ou simplesmente desaparecem das estatísticas.
Violência contra a mulher, feminicídio, desigualdade de gênero e até o wollying (o bullying praticado por mulheres contra mulheres) ainda são tratados como temas “sensíveis”, “delicados” ou “externos” às empresas. Mas não são.
Não existe ESG verdadeiro sem enfrentamento das violências estruturais que atravessam a vida das mulheres. E isso inclui vários itens.
Violência doméstica e feminicídio também são pauta ESG
Durante muito tempo, a violência doméstica foi tratada como um “problema privado”. Algo que acontecia da porta para dentro da casa. Mas quem vive essa realidade sabe: ela atravessa tudo — o trabalho, a saúde mental, a produtividade, as relações e, muitas vezes, a própria sobrevivência.
Quantas mulheres trabalham com medo? Quantas faltam porque apanharam?
Quantas são demitidas porque “não rendem mais”? Quantas são boicotadas por outras mulheres?
Quando uma empresa ignora isso, ela está falhando no Social.
Quando uma empresa não cria políticas, ela está falhando na Governança.
A empresa pode — e deve — ser rede de apoio. Isso não é assistencialismo, nem ativismo vazio. É gestão responsável.
Algumas ações possíveis dentro de programas ESG:
- Protocolos claros de acolhimento a mulheres em situação de violência
- Canais seguros e humanizados de escuta
- Flexibilização de jornada em momentos críticos
- Parcerias com redes de proteção, abrigos e instituições sociais
- Treinamento de lideranças para lidar com o tema com empatia e preparo
Não se trata de invadir a vida pessoal. Trata-se de não fechar os olhos.
Desigualdade de gênero: quando o problema é estrutural
Outro ponto central é a desigualdade de gênero dentro das próprias empresas. Ela aparece de várias formas:
- Diferença salarial
- Falta de mulheres em cargos de liderança
- Avaliações enviesadas
- Sobrecarga invisível
- Penalização da maternidade
Quando mulheres não ocupam espaços de decisão, o “G” de ESG é apenas simbólico. Governança sem diversidade não governa — apenas reproduz.
Empresas que levam ESG a sério precisam revisar:
- Critérios de promoção
- Estruturas salariais
- Composição dos conselhos
- Cultura interna
Não basta dizer que apoia a equidade. É preciso medi-la, acompanhá-la e corrigi-la.
Wollying: a violência que quase ninguém quer nomear
Existe uma violência silenciosa, muitas vezes naturalizada: o wollying. O bullying praticado por mulheres contra mulheres.
Ele se manifesta de formas sutis e cruéis:
- Competição tóxica
- Deslegitimação constante
- Julgamentos morais
- Isolamento
- Silenciamento
O wollying não surge do nada. Ele é fruto de ambientes competitivos, inseguros e de uma cultura que ensinou mulheres a disputar migalhas de espaço.
Empresas que ignoram isso estão criando ambientes emocionalmente inseguros. E ambientes inseguros não são sustentáveis.
Cultura organizacional, clima psicológico e relações no ambiente de trabalho, inclusive entre mulheres, também devem ser abordadas nas práticas ESG.
Governança que escolhe ver (ou fingir que não vê)
Aqui entra o “G”, talvez o mais incômodo de todos.
Governança não é só compliance. Governança é decisão. É prioridade. É o que entra — e o que fica fora — da pauta.
Quando conselhos e lideranças:
- Não discutem violência de gênero
- Não criam políticas internas
- Não coletam dados sociais
- Não responsabilizam comportamentos abusivos
Eles estão fazendo uma escolha. A escolha da omissão.
ESG exige coragem. Exige abrir conversas difíceis. Exige sair da zona de conforto.
Porque, no fim das contas, a pergunta que fica é simples — e urgente:
quem estamos protegendo quando falamos de sustentabilidade?
ESG e o Instituto QDM
O Instituto QDM entende algo fundamental: histórias transformam realidades. Quando uma mulher escreve, ela organiza a dor. Quando lê, ela se reconhece. Quando compartilha, ela rompe o isolamento.
Distribuir livros gratuitamente em comunidades e abrigos não é apenas um gesto cultural. É uma ação social poderosa. É prevenção. É acolhimento. É reconstrução.
O QDM atua exatamente onde muitas políticas públicas e empresariais ainda não chegam. E é por isso que a conexão entre ESG e iniciativas como essa é tão necessária.
Conclusões
Empresas podem — e deveriam — apoiar projetos que:
- Dão voz a mulheres vulneráveis
- Fortalecem redes de apoio
- Promovem empoderamento real
- Combatem ciclos de violência
Isso é ESG aplicado à vida real.
Sustentabilidade que protege vidas
Não existe sustentabilidade sem justiça social.
Não existe ESG sem enfrentamento da violência contra a mulher.
Não existe futuro enquanto mulheres continuam morrendo.
ESG não é sobre parecer responsável. É sobre ser responsável.
Que este meu espaço, no blog do Instituto QDM, seja um lugar de diálogo, incômodo e transformação. Um convite para que empresas, lideranças e a sociedade entendam que proteger mulheres não é um favor. É uma obrigação ética, social e humana.
Porque, no fim das contas, a pergunta que fica é simples — e urgente:
quem estamos protegendo quando falamos de sustentabilidade?
Liana
