O Brasil convive com números persistentes e alarmantes de violência contra mulheres. Todos os anos, mais de mil mulheres são mortas por razões de gênero, em sua maioria dentro de casa e por homens com quem mantinham ou mantiveram relações afetivas. O feminicídio, no entanto, não é um evento súbito. Ele costuma ser o último ato de um ciclo longo, previsível e progressivo de violência.

Antes do corpo ferido, há o controle.
Antes do tapa, há o medo.
E, muitas vezes, antes da agressão direta contra a mulher, há a violência contra aquilo que ela ama.

Estudos nacionais e internacionais sobre violência doméstica indicam que uma parcela expressiva das mulheres vítimas de agressão relata ter sido abusada psicologicamente por meio de ameaças, ferimentos ou morte de seus animais de estimação. Em muitos lares violentos, o agressor utiliza o animal como instrumento de coerção emocional: machucar o pet, ameaçar abandoná-lo ou matá-lo torna-se uma forma eficaz de silenciar, submeter e manter a mulher sob controle.

Esse tipo de violência é especialmente perverso porque não deixa marcas visíveis no corpo da vítima humana, mas produz um impacto psicológico profundo. O sofrimento do animal funciona como uma extensão do sofrimento da mulher. O agressor sabe disso. E usa esse vínculo como arma.

A literatura especializada chama esse padrão de Elo da Violência — a conexão entre maus-tratos a animais, violência contra mulheres, crianças e outros membros da família dentro do mesmo ambiente doméstico. Onde há crueldade contra animais, cresce de forma significativa a probabilidade de coexistirem outras formas de violência. Não por acaso, muitas mulheres relatam que o primeiro ato verdadeiramente violento do companheiro não foi contra elas, mas contra o animal da casa.

Esse padrão também ajuda a compreender outro dado preocupante da realidade brasileira: o aumento de episódios de violência grave praticados por jovens contra familiares próximos. Pesquisas em psicologia do desenvolvimento mostram que adolescentes expostos à violência doméstica tendem a normalizar a agressão como forma de resolução de conflitos. Em muitos casos, a crueldade contra animais aparece como um comportamento precursor, um ensaio de poder e dominação dentro do espaço familiar.

A violência, portanto, não nasce do nada. Ela se constrói em etapas, testando limites, explorando silêncios e se alimentando da tolerância social a pequenas agressões. Quando a sociedade trata maus-tratos a animais como um problema menor, perde-se uma das mais importantes oportunidades de intervenção precoce.

Ao longo de mais de 18 anos atuando com mulheres, ouvi repetidamente histórias que seguem o mesmo roteiro: o medo de sair de casa para não deixar o animal sozinho com o agressor; a chantagem emocional travestida de “castigo”; o silêncio imposto pela ameaça de sofrimento a um ser indefeso. Para muitas mulheres, o animal não é apenas companhia — é fonte de afeto, estabilidade emocional e, às vezes, o único vínculo de cuidado em uma relação marcada pela violência.

Ignorar esse tipo de abuso é reduzir a violência doméstica a seus estágios finais, quando o dano já é irreversível. Reconhecer que maus-tratos a animais também são uma forma de violência contra a mulher é ampliar a capacidade de prevenção e salvar vidas antes que o ciclo chegue ao extremo.

A violência doméstica não começa no tapa.
Começa quando alguém descobre que pode ferir o outro sem tocá-lo diretamente.
E, muitas vezes, essa ferida passa primeiro por um animal.

Katia Teixeira

Empresária há mais de 40 anos e mentora de mulheres há mais de 18 anos. Idealizadora do Instituto Quais de Mim (IQDM), atua com prevenção da violência e fortalecimento de mulheres em situação de vulnerabilidade.