Por Fran Muraca, pesquisadora e doutoranda em felicidade

O início de um novo ciclo carrega uma atmosfera singular e para muitos o ano só começa após o carnaval. Há algo que se reorganiza internamente quando o calendário se renova, como se o cérebro entendesse que um novo capítulo está sendo aberto. Percebo, tanto em mim quanto nas pessoas que acompanho em consultório, aulas e pesquisas, que esse período ativa uma disposição natural para refletir, redefinir rumos e estabelecer novas metas. Da perspectiva da estética, por exemplo, agora lidamos com os resultados de período que inicia em dezembro e segue até o mês de fevereiro, de praias, sol, alimentação atípica e para alguns muito consumo de álcool, gorduras, entre outros, o que sugere dietas detox, entre outros cuidados.Longe de ser apenas um hábito cultural, esse movimento tem impactos profundos na nossa biologia emocional.

Como pesquisadora e doutoranda em felicidade, observo que essa fase do ano é um terreno fértil para a ativação de neurotransmissores associados ao bem estar, especialmente a serotonina e a dopamina. Enquanto a serotonina está relacionada à estabilidade emocional, sensação de segurança e contentamento, a dopamina atua como combustível da motivação, da expectativa positiva e da sensação de progresso (um dos hormônios do “quarteto da felicidade”, é fortemente estimulada ao definir e, principalmente, ao atingir metas.A dopamina é conhecida como o hormônio da motivação e recompensa. Ela desempenha um papel crucial no sistema de recompensa do cérebro, sendo liberada não apenas no momento da conquista, mas também durante a busca e o progresso em direção a um objetivo. Essa liberação proporciona uma sensação de prazer e satisfação que motiva a pessoa a continuar buscando novos desafios e a repetir comportamentos que levam ao sucesso. Ressalvo que o “quarteto da felicidade” inclui: dopamina: Associada à motivação, foco, prazer e recompensa por alcançar objetivos.
Serotonina: Contribui para o bem-estar geral, regulação do humor e sensação de importância, fluindo quando nos sentimos significativos ou fazemos algo com propósito.
Ocitocina: Conhecida como o hormônio do amor e da conexão social, liberada em interações afetivas e de confiança.
Endorfina: Atua como um analgésico natural do corpo, aliviando a dor e o estresse, frequentemente liberada durante exercícios físicos). Juntas, elas formam uma poderosa engrenagem química que sustenta o impulso de recomeçar.

Definir metas não é apenas um exercício racional ou de planejamento. Quando estabelecemos objetivos claros, alinhados aos nossos valores e à nossa identidade, o cérebro interpreta isso como direção e sentido. Essa percepção de propósito é um dos fatores que mais contribuem para a regulação saudável da serotonina. Sentir que sabemos para onde estamos indo diminui a ansiedade difusa, organiza pensamentos e fortalece a sensação de coerência interna.

Ao refletir sobre o início de um novo ciclo, não parto da ideia de apagar o que passou, mas de integrar aprendizados. O cérebro humano não funciona bem com rupturas artificiais, ele prospera quando consegue construir continuidade e significado. Transformar experiências anteriores em aprendizado consciente cria uma base emocional sólida para novos projetos. Esse processo ativa circuitos neurais ligados à autocompreensão, ao pertencimento e à autoconfiança, elementos diretamente associados ao equilíbrio emocional.

Vejo com frequência pessoas encararem o mês de fevereiro, o pós- carnaval, estabelecendo metas excessivamente rígidas, desconectadas de suas reais necessidades emocionais. Quando isso acontece, o efeito pode ser oposto ao esperado, gerando frustração e queda nos níveis de motivação. Por isso, costumo orientar que as metas sejam construídas com gentileza, realismo e intenção. Metas que respeitam o ritmo interno do indivíduo tendem a estimular uma liberação mais consistente de serotonina, promovendo bem estar sustentável e não apenas euforia passageira.

Essa fase nos convida a algo biologicamente inteligente, organizar expectativas, reconhecer capacidades e projetar o futuro a partir de uma base emocional segura. Quando celebramos pequenos avanços, visualizamos conquistas possíveis e reconhecemos nossa própria trajetória, estamos estimulando uma química interna que favorece equilíbrio, clareza e resiliência.

Mais do que promessas ou listas extensas de objetivos, esse momento pode ser um espaço de alinhamento interno. Um tempo em que mente e corpo entram em acordo sobre o que faz sentido levar adiante. Nesse processo, a serotonina atua silenciosamente, promovendo estabilidade emocional, enquanto a dopamina nos impulsiona a agir.

Recomeçar, do ponto de vista da ciência do bem estar, não é sobre reinventar quem somos, mas sobre aprofundar a conexão com aquilo que nos sustenta. Quando fazemos isso, o cérebro responde. E responde bem.

Sobre Fran Muraca

Francisca Muraca é doutoranda em Ciências da Saúde na Universidade Federal de São Paulo, DDI, EPM, UNIFESP. Além de advogada e contabilista, é apresentadora do programa Em Frente às Feras na TV aberta e mentora de negócios na área da saúde. Atua como head jurídica na Pront, Plataforma de Saúde Integrativa, diretora jurídica na MEDCONT Consultoria e é fundadora da M2S Conectividade. Possui ampla experiência em Direito Médico e da Saúde, atua no planejamento empresarial, tributário, previdenciário, direito internacional e empreendedorismo social.

Fran Muraca é vice-presidente do Instituto Quais de Mim Você Procura e da Divine Académie Française de Lettres, conselheira fiscal da UNACCAM, União e Apoio no Combate ao Câncer de Mama, diretora administrativa do Instituto Mães Brasil e embaixadora do Clube de Mulheres de Negócios de Portugal.

Instagram: @franmuracaoficial